Entrevista com André Brown, sobre Fanzines, realizada pela pesquisadora Melissa Eloá que é Mestranda em Educação e componente do grupo de pesquisa Linguagens Desenhadas e Educação ( coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Sgarbi no PROPEd / UERJ ).
1) Qual a sua preferência, o fanzine de papel ou a mídia eletrônica?
R: Atualmente prefiro a mídia eletrônica, criando blogs, pelos recursos que ela oferece, pela facilidade de divulgação e o baixo custo.
2) Utiliza a mídia eletrônica, através de e-zines, sites, fotologs, blogs, Orkut? Especificar.
R: Utilizo sites e blogs.
3) Quais as diferenças e semelhanças entre a mídia eletrônica e o fanzine de papel?
R; Vejo semelhança na liberdade editorial. Nos fanzines como nos blogs, posso incluir qualquer tipo de informação de meu interesse sem passar pela avaliação de um editor. A diferença está na facilidade de divulgação e qualidade visual. Nos fanzines havia certa dificuldade na reprodução de imagens devido aos processos limitados de impressão, na maioria das vezes realizadas em copiadoras (reprografia). Outra limitação era a tiragem, um número reduzido de exemplares para distribuição em função da falta de dinheiro para grandes tiragens.
4) A linguagem utilizada no fanzine de papel e na mídia eletrônica é a mesma? Explique como.
R: Penso que não. Os fanzines eram feitos de forma artesanal, o que permitia uma total liberdade na diagramação e organização (ou desorganização) das páginas. Imagens e textos se misturavam de forma anárquica. Eu ainda não consigo fazer isso nos blogs, provavelmente por causa das minhas limitações com a estrutura visual deles. Posso estar enganado, mas percebo que grande parte dos blogs que conheço tende a ter uma organização maior que a dos fanzines.
5) A Internet com tantas novidades supera as expectativas de leitores e autores de fanzines de papel?
R: Acho que não. Mesmo que exista um fascínio pela Internet como espaço para difusão de idéias, os fanzineiros já tinham uma cultura visual antes da existência da Internet. O fanzineiro sabe que tipo de recursos pode obter na criação de fanzines. Quanto às possibilidades da Internet, acredito que os fanzineiros que hoje a utilizam, percebam que nela são possíveis outras formas de expressão. Fanzine e Internet permitem linguagens distintas que oferecem resultados também diferentes.
6) O alcance da mídia eletrônica é maior? Como mensurá-lo?
R: O alcance da Internet sem dúvida é maior. Em meu blog, por exemplo, em seu contador de visitantes em um período curto, mais de 10.000 visitas foram registradas. Caso eu fizesse um fanzine com o mesmo conteúdo dificilmente eu iria imprimir mais de 1000 exemplares.
7)Quais as interferências causadas pela mídia eletrônica no fanzine de papel?
R: Percebo hoje uma diminuição do número de fanzines, e também uma influência da programação visual da Internet em publicações impressas, não só nos fanzines. É possível encontrar elementos visuais típicos da Internet em revistas, livros, publicidade e em mídias eletrônicas como a TV.
8)O que o fanzine de papel representa para você neste cenário de avanço tecnológico?
R: Hoje acho mais prático fazer minhas brincadeiras editoriais na Internet, mas reconheço que fazer fanzines permite outras experiências artísticas e na área de comunicação. Existe um prazer na feitura dos fanzines diferente da produção de blogs ou sites. Existe uma dimensão lúdica na criação e no ato de fazer o fanzine, muito parecido com a produção de jornais estudantis. Acho interessantes os usos de fanzines por professores e alunos na escola, tal qual Freinet experimentou com a imprensa escolar em sala de aula. Pra mim, hoje, a grande possibilidade dos fanzines seria trabalhar com os estudantes, cada um com a sua habilidade, seja na criação de imagens ou tessituras de textos. A utilização da Internet não vai acabar com os fanzines. Já tive a oportunidade de ler fanzines que divulgam seus próprios sites, como uma pequena mostra do conteúdo lá divulgado.
9) Que período publicou fanzines de papel? (Especificar década).
R: No início da década de 90.
10) Como confeccionava? (material, xerox, etc).
R: Xerox e impressão em máquinas rotativas em gráficas de jornais, nesse último caso em formato tablóide.
11) Como divulgava o fanzine?
R: Distribuía pessoalmente em eventos, cursos de desenho, escolas e em alguns pontos fixos como gibiterias e espaços culturais.
12) Qual era o estilo do fanzine?
R: O primeiro, o Buuumm!!! HQ era a produção de quadrinhos de um grupo de cartunistas no qual eu me incluía. O segundo era um tablóide em homenagem ao cartunista Henfil e seu personagem A Graúna , que se tornou o nome da publicação.

Capa do Fanzine BUUUMM!! HQ, Nº 1
criado e publicado em 1993 no Rio de Janeiro.
13) O que o fanzine representou para você?
R: Os fanzines foram os meus primeiros espaços para publicação dos meus desenhos. Antes dos fanzines eu desenhava e guardava os meus trabalhos na gaveta, numa pasta ou algo parecido. A sensação de ter meus desenhos circulando consegui com os fanzines, recebendo o retorno dos leitores através de cartas ou pessoalmente. Dicas e críticas ao meu trabalho, também por parte de profissionais do desenho só foram possíveis a partir dessas primeiras publicações, o que me permitiu dar um salto de qualidade em meus desenhos.
14) A linguagem utilizada nos fanzines sofreu alguma modificação com a internet?
R: Acho que sim. A Internet mudou a relação que tínhamos com a linguagem visual, surgiram com ela outras maneiras de organizar a informação.
15) Por que não faz mais fanzine?
R: Por falta de oportunidade. Tenho estado mais facilmente diante de um computador trabalhando, e nos espaços de tempo aproveito essa ferramenta para me expressar em meus blogs ou sites. Não descarto a idéia de fazer um fanzine qualquer dia desses, caso eu sinta a necessidade disso.
16) Na atualidade, trabalha com algo relacionado ao que divulgava nos fanzines?
R: Comecei a minha vida profissional com desenho artístico por causa dos fanzines. Antes eu trabalhava como desenhista projetista técnico mecânico em uma fábrica, e me divertia desenhando meus personagens e caricaturas. Quando comecei a expor meus desenhos em fanzines, começaram a surgir as oportunidades de publicação em revistas e jornais. Hoje não tenho publicado tanto como eu gostaria, mas continuo trabalhando com desenho, só que agora uso essa linguagem na área de Educação, nas minhas aulas nas escolas onde trabalho. Uso também na campanha, na qual sou voluntário, contra a Dengue, em parceria com o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SINMED/RJ)).