Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 André Brown Caricartunista
 CARICATURA SOLIDÁRIA
 Caricaturaja
 Habilidade Específica Vestibular (Preparatório THE)
 Zé Roberto Graúna
 Gibiteca.com
 Machado




Cartum Faz Escola
 


Reencontrando Nássara

André Brown

 

No verão, Antônio Nássara sai de branco.Vem de Laranjeiras, onde vive com a mulher, Iracema, há 28 anos, e pode ser visto frequentemente atravessando o centro do Rio com seu andar levíssimo. (Trecho do livro Nássara desenhista, de Cássio Loredano, MEC/FUNARTE, 1985).

 

Como se tivesse acabado de sair das páginas do livro de Loredano, numa tarde de 1993, vi um senhor de bengala e roupa branca atravessar a Avenida Rio Branco, próximo da estação Carioca do metrô e andar ao meu lado até uma loja de serviços gráficos. A princípio me chamou a atenção a maneira como estava vestido. Entrou primeiro na loja que já estava relativamente cheia e se posicionou no balcão solicitando atendimento, eu fiquei exatamente ao seu lado. Sua roupa impecável, a idade avançada o visível bom humor deixavam pistas de se tratar de um típico carioca das primeiras décadas do século XX. A fisionomia dele era bastante familiar. As atendentes da copiadora passavam rapidamente de um lado a outro do balcão, ainda dando conta dos trabalhos dos clientes que chegaram antes de nós. Eu, ainda jovem com sonhos de um dia ser um cartunista reconhecido, já estava me organizando com meus desenhos para fazer cópias e reduções. Ainda tentava me lembrar de onde conhecia aquele senhor. Foi quando apoiado no balcão ele olhou para meus desenhos e falou: “Ah! Também gosta de desenhar... Posso ver? São histórias em quadrinhos... Mas são de humor. Bom... Depois que os americanos distribuíram os quadrinhos pro mundo todo, o caminho é esse mesmo.” Antes que eu pudesse perguntar seu nome ou responder que gostava de outros tipos de desenho, começou a chamar a atenção de uma das funcionárias da loja cantando uma marchinha:

 

“Allah-la-ô, ô ô ô, ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô, ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O Sol estava quente, queimou a nossa cara”

 

Tratava-se de um momento mágico, entendi que estava ao lado do grande caricaturista, desenhista e compositor carioca Nássara, manuseando seus desenhos alí na minha frente. Gentilmente me deu uma cópia de um de seus trabalhos e passamos a conversar sobre caricaturas. Percebi que ele tinha dificuldade para ouvir mas mesmo assim conseguimos nos comunicar. Foi um dia inesquecível! Antônio Gabriel Nássara nasceu em 11 de novembro de 1910 no bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro, onde viveu até os 12 anos, passando o restante da adolescência em Vila Isabel. Nássara cursou o primário na Escola Municipal Nilo Peçanha, depois estudou no Colégio Pio Americano, ambos em São Cristóvão. Em 1927, entrou para a Escola Nacional de Belas Artes, onde cursou até o quarto ano de Arquitetura. Trabalhou em várias publicações entre elas O Globo, A Noite, Crítica, A Hora, O Radical, A Nação, Careta, O Cruzeiro, Última Hora, A Jornada, O Pasquim. Autor de pelo menos duzentas músicas, entre elas Allahla-ô (Nássara / Haroldo Lobo), Balzaquiana (Nássara / Wilson Batista), Periquitinho verde (Nássara / Sá Róris), também foi contemporâneo e parceiro de boemia de Noel Rosa, juntos compuseram duas marchas: Retiro da saudade (1934) gravada por Carmem Miranda e Francisco Alves com o grupo Diabos no Céu, e Que Baixo (1936) gravada por Aracy de Almeida com Conjunto Regional, ambas pela gravadora RCA Victor.

Durante o carnaval de 1994, fiz, com alguns colegas, o segundo número do jornal alternativo Bummm!!! HQ homenageando Nássara, reproduzindo seus desenhos de figuras carnavalescas, autorizado pelo artista. Depois daquele dia não o encontraria mais pessoalmente. Mesmo assim, Nássara escreveu uma carta para o nosso jornal agradecendo a homenagem. Sobre a estética singular das caricaturas e desenhos de Nássara, muito já foi dito, mas acredito que o pesquisador Herman Lima soube expressar algumas características da obra em questão quando escreveu que:

 

Se trata dum lápis duma verve contundente, duma graça não raro hilariante, não só pela execução vigorosa e sintética em extremo, como pela concepção cheia de subtendidos (...) o traço é duma instantaneidade fantasista, duma geometria desvairada que dão ao conjunto o resultado hílare duma tirada de clown.

 

Em um encontro de cartunistas, vi o Jaguar dizer que o Nássara fazia logotipos de gente, tamanha era a sua capacidade de síntese para representar os traços fisionômicos de seus caricaturados. Os traços econômicos, firmes e surpreendentemente feitos à mão livre com o tira linhas (instrumento precário para desenhar à nanquim geralmente com auxílio de um compasso), os grandes formatos e a maneira como coloria vivamente seus trabalhos constituíram a inconfundível identidade visual dos desenhos e caricaturas de Nássara. Nos últimos tempos o artista ilustrou os livros infantis Bobos e espertos, de Edy Lima (1988) e Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão, de Daniela Chindler (1996). Nássara faleceu em 11 de dezembro de 1996, no Rio de Janeiro. Comemorando o centenário de nascimento de Nássara, o cartunista Zé Roberto Graúna, que também conheceu o artista pessoalmente, está realizando em parceria com o artista plástico Jorge de Salles a curadoria da belíssima exposição intitulada Nássara – 100 Anos, com parte significativa da obra do caricaturista que foi doada pelo próprio Nássara ao Jorge de Salles e que será exibida no Centro Cultural Justiça Federal, durante o período de 14 de dezembro, quando acontecerá a inauguração da mostra, a 6 de fevereiro de 2011. É uma boa oportunidade para conhecer ou rever a obra de Nássara. O Centro Cultural Justiça Federal fica na Avenida Rio Branco, n° 241, Cinelândia.



Escrito por André Brown às 22h02
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]